Uma vez me disseram que Deus escreve certo por linhas tortas, e essas linhas tortas me guiam no caminho reto e por isso às vezes a dor vem para o bem e não para lamentação. O embargar do peito e o seu desalinhar interno, não há tristeza nesse pranto, mas há desprendimento e alegria correndo por sua face e transbordando em águas. É bom chorar para se despedir, para aliviar, deixar ir tudo em lágrimas, sair do raso e alcançar as profundezas de seu universo interno. Não há beleza maior do que seu imo, todo traçado a mão por si mesmo, porém o que nele vingar é o que alimentou, por isso borde arco-íris que a aliança da vida brotará em seu jardim. Não se enlace em falsos devaneios, em tons frios, as raízes sem profundidade vão se perdendo com o tempo, e o que ainda as segura um dia irá embora. O que seus olhos veem um dia desaparecerão como fumaça, tudo ficará para trás, não haverá no que se agarrar, onde se apoiar, e tudo que sobrará serão os pesos de seus fracassos. Hoje ainda tens vida, ainda saltita, palpita, ainda chora, ainda sorri, ainda tem luz em seus olhos e esperança em seus passos, por isso liberte-se como borboleta de seu casulo, como o passarinho de seu ninho e como criança aprendendo a viver. Liberte-se de todo ardor, toda angústia, todo mal e sofrimento, nada disso trará paz, o tempo não fará surtir efeito sozinho, é preciso que levante-se e vá a luta por si mesmo. Chore, grite, porém, traga liberdade em sua voz, traga alegria e simplicidade, deixe escorrer suas angústias e as esqueça, pule do penhasco sabendo que as mãos da eternidade irão te abraçar, como as nuvens abraçam o mundo. Deixe-se ser revestida pelas vestes celestiais, para isso é preciso a mudança, o desligamento de todo um tempo apoiado ao nada, é preciso desatar os nós e recomeçar com o lume germinando em sua terra. As lágrimas desprende, é só permitir que elas levem consigo toda a angústia de tempos sem luz.

 

Por Luiza Campos