Em seu leito, antes da morte, adormeceu e se aprofundou em seu íntimo. Visitou suas conquistas; dentre elas, sua casa gigantesca. Sentiu-se contente com tal obra, mas percebeu que não era sua casa material que contemplava, e sim seu conhecimento, pois se encontrava em sua própria consciência. Nessa casa havia uma caixa de correio, e resolveu abri-la. Surpreendeu-se ao vê-la cheia de cartas, pois jamais havia olhado ali. A primeira carta dizia: “Que bom que você chegou! Eu precisava de companhia. Há muito anseio por tua presença. Quando encontrar esta carta, estarei te aguardando para nos tornarmos um.” Sem entender como poderiam se tornar um, não sentiu curiosidade e partiu para a próxima carta. A segunda dizia: “Já faz um tempo que você despertou, mas até agora não me buscou. Continuarei a chamar sua atenção em cada etapa de sua caminhada, mas peço que me escute e se atente quando eu desaprovar teus atos, pois quem me enviou deu ordens claras de como você deve andar.” Curioso, começou a se questionar quem era aquele que escrevia e quem o havia enviado. Será que já o conhecera? Então leu a terceira carta: “Por muito tempo te esperei, e por muito tempo fui ignorado.
Desaprovei diversos atos teus, mas mesmo com o peito ardendo, você seguiu seus desejos, entregou-se à carne e não buscou o Senhor. Não sei se voltarei a escrever, mas sempre estarei à tua espera. Portanto, atente-se, pois o tempo está se acabando, e quando o Senhor me chamar, espero voltar junto a ti, pois somente assim saberei que cumpri a missão dada pelo Senhor.” Nesse momento, o leitor começou a entender. Lembrou-se do dia em que se curvou diante da imagem de uma santa e sentiu seu peito ferver como fogo. Sentiu o peso da culpa, mas foi contra a verdade do Senhor. Percebeu os erros cometidos, as atrocidades contra o espírito. Tudo começou a fazer sentido. Quando entendeu que as cartas eram da vida, antes mesmo de ler a última que restava, começou a procurar a vida em todos os cantos, pois sabia que seu tempo estava chegando ao fim e que a hora da partida se aproximava. Procurou por toda a casa, gritou, chorou. O desespero foi tão grande que o dia chegou ao fim. Quando já não sabia mais onde procurar, leu a última carta: “Continuei à tua espera, mas nada posso fazer além de aguardar tua busca. Ficaria contente em te mostrar a beleza da verdadeira razão de existir, mas vejo que já construiu teu futuro pela carne. Vejo tua casa erguida, e vejo também teu maior erro. Tentei te avisar, mas você nunca me ouviu. Tua base foi uma ilusão feita pela carne, e quando tudo desmoronar, acontecerá como foi dito em todas as cartas. Estive à tua espera, e agora não há mais tempo, pois o Senhor já me chamou. Voltarei sem a consciência que tanto procurei. Você não se tornou quem deveria ser, e sei que já não há mais tempo para isso. O fim chegou, e sinto em dizer que, mesmo sem termos nos conhecido, agora será uma eternidade sem nos conhecer.” Após finalizar a carta, desesperou-se. Sentiu a perda de algo que nunca conheceu, mas que possuía valor maior do que tudo o que já teve. Sentiu seu mundo estremecer. Olhou para sua construção e viu sua casa cair ao chão. Como dito pelo espírito, sua base era areia, e tudo se perdeu. A escuridão chegou, e depois daquele dia, a luz nunca mais apareceu.
Por Luiz Gustavo