Tela cheia de contrastes, não reflete a imagem exata do que realmente é. Tornou-se um quadro borrado, indesejado, que ninguém quer contemplar, nem sequer se aproximar para observar. Sua trajetória ficou demarcada por aquilo que você mesma construiu: um vazio sem preenchimento, carregado de lamentos, angústias e dor. Faltou-lhe sensatez em tantas decisões, e hoje o arrependimento bate forte, enquanto você se debate em contradições, prisioneira das próprias escolhas, sem encontrar alívio para suas aflições. Seus tímpanos já não suportam a verdade, e dela você tenta se esquivar. Mas o dedo da vida insiste em cutucar, fazendo seus olhos, em silêncio, lacrimejarem. O peso já é tanto que você mal suporta a própria carga. Anda inquieta, calada, colhendo as agruras da alma, enquanto a tristeza, pouco a pouco, lhe rouba a serenidade e a calma. Não é que o tempo tenha sido cruel com você, mas tudo na vida traz uma consequência. Aquilo que um dia se plantou, mais cedo ou mais tarde, será colhido. E o fruto das próprias escolhas torna-se a sentença de um passado não resolvido. Você até poderia voltar lá atrás, reconhecer os erros e se arrepender das más ações. Mas prefere o silêncio, guardando consigo as más recordações, mesmo sabendo o quanto elas ferem e castigam o próprio coração.
Alimentar aquilo que corrói por dentro é manter os pés acorrentados à ilusão, é continuar presa às sombras do passado, sem encontrar a saída para a própria prisão. Sua carta de alforria estava tão perto, bem ali, ao alcance da mão direita. Mas, quando chegou a hora de abrir as asas, você hesitou… E acabou sendo levada pelo vento, perdendo a liberdade que parecia tão perto e perfeita. As palavras até podem tocar sua alma e provocar mudanças por um breve momento, mas perderam a força de transformar seu interior, de despertar sua consciência e libertá-la de tudo aquilo que alimenta o sofrimento. Encontre-se nesse labirinto, reúna forças e procure a saída. Talvez as portas ainda estejam abertas, esperando que você escolha um novo caminho e encontre a redenção que tanto precisa. Eu não sou juiz, nem me cabe proferir uma sentença. Mas você pode colocar na balança o que carrega dentro do coração e avaliar o peso de sua própria consciência. Tente ser verdadeira consigo mesma, não tente sua própria dor maquiar. Pois, quando o silêncio já não consegue esconder a verdade, é no espelho da alma que a tristeza insiste em se revelar.
Por Ítalo Reis