O instinto animal ataca — às vezes desarma, às vezes alarma. Foca-se, desfoca-se, e age no calor da emoção, sem medir consequências, sem ouvir a razão. Fala-se tanto em domar as próprias vontades, em ter domínio sobre o que se pensa, o que se fala, o que se faz Mas é a consciência quem dá o start quem desenha a arte e também sabe conter-se. A ponderação repousa em suas mãos; é dela que o verbo nasce, é por ela que a ação acontece. Ela carrega poderes silenciosos, entre eles, o domínio próprio. Por ela se manifestam os reflexos do ser: virtudes e também opróbrios, luz e sombra, queda e superação. O raciocínio lhe é inerente. Quando funciona com minúcia, com autocontrole e obediência, não sai do eixo — caminha firme pela trilha da vida, transparente, consciente, segura. Mas quando se dispersa, a procedência se perde, a indecência floresce, e o ser se acomoda aos próprios conflitos, sem lutar, sem reagir, sem se erguer. Deixa pontas soltas e nelas se enreda.
Vive à deriva de si, sem saber para onde ir nem como voltar. Domar as próprias vontades não é vaidade — é liberdade sentida de verdade. É reconhecer que a maldade ronda, que o looping que criamos nos prende em nós mesmos, em repetições que sufocam, em atos que ferem o próprio coração pelas próprias mãos. No calor da emoção, silenciamos a razão. Por isso é preciso pensar. Raciocinar antes de agir. Refletir antes de falar. Autodominar-se para não falhar. A existência que devemos exaltar é aquela que nos dá a vida sem cessar. Ela nos ensina o bem, nos conduz ao equilíbrio, nos chama ao alto. Por meio dela espelhamos a sabedoria que provém de Deus. Se nos deixarmos guiar, ela nos conduz de forma doce, sem imposição, mas com propósito claro. Domando nossos passos, afinando nossos impulsos, rasgando o véu que cobre a visão e impede o coração de enxergar. É preciso dominar o animal que insiste em habitar esta casa que não lhe pertence: a nossa alma.
Por Patrícia Campos
Tema sugerido por Lucinha