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Grito preso

Parece ter fechado a garganta; as dores sofridas no peito guardam suas águas em lugares escuros e, nas poucas vezes em que escorrem é no silêncio que deságuam. É como um sonho onde você tenta gritar, pede socorro, mas a voz não sai; você se sente impotente e com medo e, ao olhar para trás, tudo o que vê é assustador — um susto para cada dor. Prisioneiro do próprio passado, nas mãos não esconde o pecado, e nos pés os grilhões que se arrastam têm um som maior do que o da própria voz. Não que tenha se calado, mas é que o grito ficara guardado, entalado; não por vontade, mas por falta de força. E agora, a forca mostra a corda entrelaçada ao pescoço, e não vem o socorro.

Quiçá alguém lhe batesse nas costas para libertar este grito e ouvir a resposta para este peito aflito. Desde o dia em que se perdeu, nunca mais se ouviu sua voz. Sua garganta, enfraquecida pelos percalços da vida, e a verdadeira vida esquecida… Esqueceu-se da sina que lhe foi incumbida. Sua voz embargada não esconde a tristeza de quando a frieza lhe tomou conta; agora não fecha a conta, apenas a boca, numa voz um tanto quanto rouca. Subtraiu-se o que lhe podia somar, e agora as suas palavras derretem nas águas do mar no qual naufragou sua dor — feito um navio esquecido. Quem dera pudesse, no grito, alcançar sua alforria; quem sabe a sua alegria voltasse a lhe visitar.

Por Patrícia Campos 🌺

Tema sugerido por Lucinha