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Rasgar o véu

Do lado de cá, via-se tudo com facilidade; os olhos se encantavam com tanta distração. Vez ou outra, um pouco de felicidade — era só para enganar o coração. Nada do que se vê a olho nu é real; meio contraditório, talvez, mas é que, no fim, verás que tudo daqui é irreal, que a morte é fatal e te aniquila de vez. Uma cortina de fumaça que trazia uma ilusão de ótica; é assim que a ilusão se disfarça, deixando cada um em sua órbita. Um mundinho fechado e pequeno, onde suas voltas sempre terminam no mesmo lugar; folhas carregadas pelo vento na tentativa de se encontrarem. Teria que atravessar seu próprio infinito e deparar-se no meio dele; daí, sim, veria que o finito é aquilo que pensava ser ele. Mas não é; foi só mais uma ilusão.

Entenderia que o ser humano é como um pé que produz o fruto da razão — o motivo de tudo ter sido criado. A consciência que o ser humano produz é algo que nos deixa intrigados, mas é a vida que nela reluz. Enquanto há vida, há esperança de tê-la; mas se um dia não vê-la partindo, nunca mais se encontrará com ela. E o que não nos deixa enxergá-la é justamente o véu que se põe sobre o nosso olhar: um corpo movimentado por vértebras que, sem a vida, se torna destroços; engana com tantas quimeras que, no fim, não valem os esforços. Um dia, tudo o que se manifesta por esta matéria se esvai, e o que fica é somente a vida, se a alma não se retrai confinando-se para ganhar sua vida infinda. É preciso rasgar este véu para poder enxergar o lado de lá; lado este que não está longe, mas sim neste céu que existe no interior do nosso universo.

Por Patrícia Campos 🌺

Tema sugerido por Luiza