Há uma névoa de incertezas que envolve as perguntas sobre o nosso porquê. Entre tantas hipóteses sobre a razão de existirmos, somente uma se sustenta sobre o pilar real. Observo que muitos se apegam a teorias frágeis, como quem busca abrigo em sombras, preferindo o conforto das certezas — ou talvez incertezas — alheias à exaustão de um raciocínio próprio. É o caminho mais curto, porém o mais vazio. Na quietude do meu entendimento, ressoa uma verdade: somos tecidos por mãos maiores. Como toda criação, carregamos conosco a marca de uma função, um desígnio impresso na alma. A lâmpada, por exemplo, não questiona a luz; ela existe para revelar o que a escuridão esconde. Nós também. Pela matéria ganhamos voz, e a consciência floresce para manifestar o Criador. Servir não é um peso; é o que somos e para o que fomos feitos: manifestar, pensar, raciocinar, arquitetar ideias, determinar e agir. O propósito não nos pertence, apenas o ecoamos através das nossas consciências, que são espelhos por onde desenhamos em nós o infinito. Quando nos dedicamos a esse propósito, a vida deixa de ser um mero transcorrer de dias e se torna um diálogo silencioso e constante com o que é eterno.
Contudo, há um risco no silêncio. Caminhar sem fundamento é caminhar na areia. Este corpo, que hoje nos sustenta, é apenas um vaso efêmero, um viajante que, cedo ou tarde, se vai. Se a consciência — essa joia preciosa — não encontrar alicerce no espírito, ela se perde. Quando a carne enfim retorna ao pó e o espírito se retira para a sua fonte, a consciência que se distraiu com as miudezas do mundo sofrerá seu estado em solidão absoluta: o que era para espelhar a vida, tornar-se-á um eco sem voz na eternidade.
Por Patrícia Campos ![]()
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