Ao repousar, despretensiosamente, descansou suas pálpebras sem ao menos imaginar o que pudesse lhe acontecer. Talvez buscasse respostas em lugares onde não havia palavras. Mas, ao entregar-se por amor de si mesma, o orvalho da noite veio lhe visitar: águas em formato oculto, entrelinhas desenhando-se em linhas repletas de retratos de sabedoria. Enigmas que só são desvendados pelas almas que buscam abrigo no céu. A noite fala de forma anônima, mas aquele que busca respostas atenta-se aos pequenos detalhes. Então, ao fechar as pálpebras, a visão já não era mais turva, e nem se fazia curva: traçava-se em si a reta, o espaço mais curto entre os pontos alma e espírito. A analogia é o pontilhado que, quando traçado e compreendido, torna-se a resposta daquilo que foi pedido e, então, concedido ao peito que não se acomoda, nem quer se sentir perdido; antes, busca de forma sólida suas passadas por este lugar efêmero, porque é através dele que se encontra o lugar eterno.
As palavras são águas em forma de letras, que se encaixam e dão sentido para quem quer entendê-las. Uma compreensão ampla, além da hermenêutica, algo sentido no imo, a ponto de transcender o próprio sentido. Quando a alma repousa, o orvalho da noite cai sobre ela. E ela se deixa umedecer pelas águas que descem do céu, perfurando-a como espadas, cravando-a como uma bandeira branca que traz consigo a paz e o acolhimento que o entendimento permite a quem quer compreender. Que toda água designada a cada um de nós seja recebida por nossas almas de portas abertas. E que, mesmo quando essas águas não trouxerem a doçura que desejamos, saibamos que tudo é para o bem de Deus.
Por Patrícia Campos